Decorador Gilberto Cioni

Decorador Gilberto Cioni relembra sua trajetória

 
Revista CARAS | 31 de Maio de 2012 (EDIÇÃO 969 – ano 18)

Uma das memórias de infância do decorador Gilberto Cioni (49) é de quando seus pais contrataram um decorador. “Na época não era uma coisa comum, mas todos os ambientes foram arrumados por ele”, lembra Cioni. Mas se a paixão pelo design surgiu há muitas décadas, o começo na carreira demorou um pouco mais. Ao entrar na faculdade, ele optou por Administração, carreira que “não tinha nada a ver com ele”. Então, saiu da faculdade e do Brasil. Mudou-se para a Itália e foi estudar decoração em Firenze. Um ano e meio depois retornou ao Brasil. Mas ainda não seria naquele momento que a decoração entraria em sua vida. “É um mercado fechado e naquela época mais difícil ainda de entrar”, lembra ele, que decidiu fazer pós em marketing. Trabalhou por três anos em uma empresa e paralelamente decorava projetos.

O início efetivo na decoração só aconteceria em 1990, quando conheceu o arquiteto Olegário de Sá (47) e começaram a sociedade que dura até hoje. “Era o Olegário, eu e a nossa secretária. Aliás, a mesma há mais de 20 anos”, conta Cioni. “Fomos crescendo e hoje somos 25 arquitetos. Um escritório de porte médio, do tamanho ideal para o tipo de trabalho que gostamos de fazer”, afirma ele.

A cobertura em que Cioni vive em São Paulo é um exemplo do trabalho que realiza com Olegário, em que sofisticação e conforto se destacam. “Somos contemporâneos, mas sempre trazemos uma pegada do clássico. Pode ser com uma peça retrô, por exemplo. Mas obviamente também levamos em conta as tendências do momento”, diz ele. No apartamento, Cioni tem clássicos como a poltrona Up, de Gaetano Pesce, a poltrona Mole, de Sérgio Rodrigues e cadeiras Philippe Starck. Mas isso não o impediu de usar em um dos ambientes uma geladeira Frigidaire, presente de casamento que os pais ganharam há exatos 60 anos. Até mesmo um banquinho feito por um dos pedreiros durante a última reforma se transformou em uma mesa lateral na sala. “Obviamente esse banquinho está ao lado de um sofá incrível, que faz um contraponto”, justifica.

A parte preferida do decorador na casa é a escada que liga os dois andares. A estrutura está presa somente pelas pontas de cada andar, tendo um vão livre entre a parede lateral e os degraus. “Escada geralmente é um mico em projeto, mas todo mundo acha essa linda”, conta ele sobre a obra que também tem uma tora de madeira como primeiro degrau.

É com essa versatilidade que o decorador encanta os seus clientes ao redor do mundo, seja com um projeto de shopping center em Angola, um empresário nos Estados Unidos, um amigo no Líbano ou uma modelo no Brasil. Mas apesar do sucesso, esqueça a imagem do decorador que impõe suas vontades. “Um dos motivos de chegar onde estou é eu gostar de ouvir o cliente. Só fico satisfeito quando ele está satisfeito. Tenho a possibilidade de tornar sonhos concretos. Me realizo quando consigo realizar um sonho. Sabe o que é amar o que você faz? Eu amo, amo”, finaliza.

Confira a entrevista:

– Você tem na sua casa uma poltrona do Sérgio Rodrigues, uma Up do Gaetano Pesce, mas ao mesmo tempo um banquinho de construção bem simples. Como se faz esse mix de sofisticação e alternativo sem errar?

– Isso eu acho que é um pouco do dom, e dom a pessoa tem que nascer. Vamos supor, eu sou zero da matemática, das exatas. Sou zero. Mas eu acho que eu consigo ter uma visão… Eu consigo ir a uma loja, ou um local que eu vejo que não é tão legal, que não é o que especifico para os meus clientes, mas dali eu consigo tirar alguma peça que pode ser muito legal. A gente sempre tem que ver… Porque as pessoas veem a utilização do objeto para uma única coisa, e é isso o que a gente não pode ter como decorador. Nós temos que ver o objeto com a visão para várias outras utilidades. Então, tenho esse banquinho de obras que o meu pedreiro fez aqui em casa durante uma reforma. Falei para o pedreiro: ‘Esse banco vai ser a minha mesa lateral’. Ele não acreditou quando eu disse. Claro que uma peça dessas jamais poderia estar ao lado de um sofá “mais ou menos”. Ele tinha que estar ao lado de algo de impacto, algo bacana para fazer o contraponto. Por isso está ao lado de um sofá da FlexForm, que tem um custo mais alto. Sozinho esse banco não fica legal, mas ao lado de peças de design entra como uma peça interessante.

– Alguns decoradores defendem que quanto menos interferência do cliente, melhor. Como você vê essa questão?

– Hoje temos projetos de shopping, lojas e residências. Até em Angola temos clientes. E quando estou andando com o cliente, não importa quem ele seja, só paro quando ele está feliz. Muitas pessoas reclamam quando já estão cansadas: ‘Ai, o cliente não fecha’. E eu sempre pergunto: quer ver outra opção? E eu levo para ver outra opção. Eu tenho paciência porque eu quero que fique do jeito que o cliente espera. Porque é um sonho que a gente consegue concretizar, tornar realidade o que ele imaginava.

– E quando o cliente tem uma peça de estimação, mas essa peça não combina com o que o decorador imagina, o que fazer?

– Muitas vezes os clientes têm peças que não são de designers importantes, mas eu quero ver a peça do cliente. Porque às vezes é uma peça legal, que não tem nome ou “pedigree”, mas com uma roupagem nova funciona. Eu vou mudar o tecido, eu vou mudar a cor do móvel e vai ficar uma peça importante. É isso que eu peço aos meus arquitetos. Peço para eles olharem. A gente tem que ter um olhar um pouco mais apurado. Eu tenho essa peça aqui do home theater e eu já estou na terceira leitura dela. Ela não é antiga, ela deve ter uns oito anos. Nem isso. Ela veio originalmente de madeira. Depois eu fui para o apartamento preto e cinza, aí ela foi preta laca e brilhante. Agora é esse azul que é supertendência.

– E tendências, existe moda em decoração?

– Muita gente não gosta de falar em tendência, mas eu gosto. É visível a influência da moda na decoração. Observe os desfiles nas passarelas e veja como alguns meses depois eles começam a apontar tendências de decoração como cores e estampas. Eu gosto de fazer uma analogia para o cliente quando falo de cores, por exemplo. Vamos supor o azul marinho e o amarelo. Você tem um sofá azul marinho de linho, legal. E o amarelo é uma cor que entra bem com o azul. E você usa uma calça jeans azul e bota uma camiseta amarela. Não amarelão. Mas um amarelo sutil. Eu mostro isso para o cliente, mostro com roupas. – ‘Ah, mas você vai usar verde com azul?’, questiona o cliente. E eu respondo: ‘Ué? Mas você não usa o jeans azul e bota uma peça verde?’ A moda das passarelas lança cores. O coral, por exemplo, está muito forte. O azul, laranja… Hoje, as cores estão voltando mais fortes. Eu ainda sou um pouco mais monocromático. Mas, para eu apimentar o espaço, eu jogo cor.

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